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16/02/2009

Os Crentes e a Crise


Por Alexandre Galli

Os últimos anos da economia no Brasil foram marcados por boas notícias: crescimento da produção industrial, aumento do comércio exterior, geração de mais postos de trabalho com conseqüente diminuição do desemprego, melhoria (tímida) na distribuição de renda, recordes atingidos na produção e venda de automóveis, construção civil super aquecida, bolsa de valores atingindo picos de valorização refletindo a saúde financeira das empresas negociadas e o comércio vendendo como nunca são acontecimentos que foram vistos por todos como sinal de que a prosperidade aportava por estas terras tupiniquins para ficar.
Essas boas notícias não aconteciam como conseqüência das políticas industriais e de desenvolvimento deste governo (até porque não há política industrial e de desenvolvimento neste governo). Também não eram conseqüências de nossa boa infra-estrutura, nem de nossa política educacional que forma jovens competentes para o mercado de trabalho (nossos jovens mal sabem ler ao sair do ensino médio).


A economia brasileira “bombou” nos últimos anos por um único motivo: a economia mundial estava bem. Estados Unidos e Europa consumindo, China, Índia e Rússia crescendo vertiginosamente e, num mundo altamente globalizado, todos tiraram proveito do sucesso de todos.


Mas (e sempre tem um “mas”), justamente de onde não se esperava, veio o balde de água fria. Os consumidores americanos estavam atolados em dívidas lastreadas em seus imóveis, que não paravam de se valorizar, e o consumidor não parava de aumentar seu endividamento e de consumir. Até que o ciclo se rompeu. A “bolha estourou” como gostam de dizer os economistas. Os imóveis começaram a perder preço, os americanos pararam de pagar suas prestações, os bancos começaram a quebrar, o mundo entrou em pânico e pronto. Acabou a festa. Demissões anunciadas, empresas fechando e perspectiva de recessão para, no cenário mais otimista, o próximo ano.


Enquanto isso no Brasil, os políticos governistas capitaneados pelo seu Presidente, se esforçavam em convencer a todos que o problema deveria ser resolvido pelo Bush (palavras do próprio Lula) e que nada estragaria nosso sossego.


Até que as empresas brasileiras começaram a sentir os inevitáveis efeitos da turbulência e anunciaram suas medidas: férias coletivas, demissões e diminuição das previsões de investimentos para o próximo ano.Pois bem: se o governo afirmava que o sucesso da economia se devia às suas medidas, agora, no momento do fracasso, afirma que a culpa é dos “países ricos”, e que não tem nada com isso.O que há de estranho neste comportamento? Nada. É assim que se faz política, não só no Brasil, mas no mundo todo.


O estranho, é que, assim como os políticos, muitos religiosos evangélicos colocaram-se como os responsáveis pelo bom momento da economia. Tudo ia bem graças às suas orações, sua intercessão pela nação, seus jejuns, suas campanhas. Há até um site de uma campanha de jejum anual promovida por uma igreja da região do ABC paulista, dizendo que um dos sinais das bênçãos de Deus é uma “notável melhora econômica”. Justamente uma igreja do ABC, uma das regiões que mais estão sentindo os efeitos da crise, já que a economia da região é altamente dependente das montadoras de automóveis, que estão praticamente paradas e com os pátios lotados.


Senhores pastores e líderes evangélicos: não tratem suas ovelhas como burros. Esta crise certamente atingirá a todos, indistintamente, inclusive as próprias igrejas, e quando isso ocorrer, veremos qual será o discurso. Seria o “é culpa do diabo”? Seria o “é a falta de fé do povo”? Seria o “é culpa da mídia”? Ou seria o improvável “desculpe por mentir para vocês fazendo-os crer que quando tudo estava bem era por causa das minhas orações”?


Estou certo de que os cristãos serão muito importantes na reconstrução da economia global, se estiverem dispostos a colocar em prática seus elevados valores morais e força de trabalho em prol de uma sociedade mais justa e equilibrada.


Mas, enquanto prevalecerem os discursos histriônicos de gente que já se distanciou há muito tempo da realidade, os cristãos continuarão a ser parte da crise (no sentido mais amplo da palavra) e não solução para ela.

15/02/2009

O buraco perfeito




Por Leonardo Boff

Ignace Ramonet, diretor do Lê Monde Diplomatique e um dos agudos analistas da situação mundial, chamou a atual crise econômico-financeira de “a crise perfeita”. Putin, em Davos, a chamou de “a tempestade pefeita’. Eu, de minha parte, a chamaria de “o buraco perfeito”. O grupo que compõe a Iniciativa Carta da Terra (M. Gorbachev, S. Rockfeller, M.Strong e eu mesmo, entre outros) há anos advertia: “não podemos continuar pelo caminho já andado, por mais plano que se apresente, pois lá na frente ele encontra um buraco abissal”. Como um ritornello o repetia também o Fórum Social Mundial, desde a sua primeira edição em Porto Alegre em 2001. Pois chegou o momento em que o buraco apareceu. Lá para dentro caíram grandes bancos, tradicionais fábricas, imensas corporações transnacionais e US$50 trilhões de fortunas pessoais se uniram ao pó do fundo do buraco. Stephen Roach, do banco Morgan Stanley, também afetado, confessou: “Errou Wall Street. Erraram os reguladores. Erraram as Agências de Avaliação de risco. Erramos todos nós”. Mas não teve a humildade de reconhecer:” Acertou o Fórum Social Mundial. Acertaram os ambientalistas. Acertaram grandes nomes do pensamento ecológico como J. Lovelock, E. Wilson e E. Morin”.


Em outras palavras, os que se imaginavam senhores do mundo a ponto de alguns deles decretarem o fim da história, que sustentavam a impossibilidade de qualquer alternativa e que em seus concílios ecumênicos-econômicos promulgaram dogmas da perfeita autoregulação dos mercados e da única via, aquela do capitalismo globalizado, agora perderam todo o seu latim. Andam confusos e perplexos como um bêbado em beco escuro. O Fórum Social Mundial, sem orgulho, mas sinceramente pode dizer: “nosso diagnóstico estava correto. Não temos a alternativa ainda mas uma certeza se impõe: este tipo de mundo não tem mais condiçãoes de continuar e de projetar um futuro de inclusão e de esperança para a humanidade e para toda a comunidade de vida”. Se prosseguir, ele pode pôr fim a vida humana e ferir gravemente a Pacha Mama, a Mãe Terra.


Seus ideólogos talvez não creiam mais em dogmas e se contentem ainda com o catecismo neoliberal. Mas procuram um bode expiatório. Dizem: “Não é o capitalismo em si que está em crise. É o capitalismo de viés norteamericano que gasta um dinheiro que não tem em coisas que o povo não precisa”. Um de seus sacerdotes, Ken Rosen, da Universidade de Berkeley, pelo menos, reconheceu: “O modelo dos Estados Unidos está errado. Se o mundo todo utilizasse o mesmo modelo, nós não existiríamos mais”.


Há aqui palmar engano. A razão da crise não está apenas no capitalismo norte-americano como se outro capitalismo fosse o correto e humano. A razão está na lógica mesma do capitalismo. Já foi reconhecido por políticos como J. Chirac e por uma gama considerável de cientistas que se os paises opulentos, situados no Norte, quisessem generalizar seu bem estar para toda a humanidade, precisaríamos pelo menos de três Terras iguais a atual. O capitalismo em sua natureza é voraz, acumulador, depredador da natureza, criador de desigualdades e sem sentido de solidariedade para com as gerações atuais e muito menos para com as futuras. Não se tira a ferocidade do lobo fazendo-lhe alguns afagos ou limando-lhes os dentes. Ele é feroz por natureza. Assim o capitalismo, pouco importa o lugar de sua realização, se nos EUA, na Europa, no Japão ou mesmo no Brasil, coisifica todas as coisas, a Terra, a natureza, os seres vivos e também os humanos. Tudo está no mercado e de tudo se pode fazer negócio. Esse modo de habitar o mundo regido apenas pela razão utilitarista e egocêntrica cavou o buraco perfeito. E nele caiu.


A questão não é econômica. É moral e espiritual. Só sairemos a partir de uma outra relação para com a natureza, sentindo-nos parte dela e vivendo a inteligência do coração que nos faz amar e respeitar a vida e a cada ser. Caso contrário, continuaremos no buraco a que o capitalismo nos jogou.