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03/04/2012

Minha visão da situação atual da igreja instituição no Brasil


Minha visão da situação atual da igreja instituição no Brasil

Infelizmente neste tempo em que vivemos onde aqueles ou alguns dos que deveriam anúnciar as boas novas se perderam seduzidos por doutrinas estranhas e ensinamentos no mínimo contraditórios ao que a palavra ensina não é dificil até para leigos perceber erros doutrinários terriveis nas igrejas do país. Este texto é fruto de observações que faço há anos e abaixo tento descrever um pouco do que tenho visto por aí.
Boa leitura e deixe seu comentário por favor! 
Manipulação das pessoas através dos dízimos e ofertas.
O dízimo apresentado na palavra de Deus quando for devolvido deve ser feito com um coração expontâneo.
O dinheiro referente ao dízimo já deixou de ser algo expontâneo, algo de devolução por amor e gratidão às benesses concedidas pelo Senhor, mas hoje em dia dízimo virou moeda de troca, troca pela segurânça patrimonial, troca por garantia de emprego, troca para se evitar o estrago repentino no carro, para evitar uma enfermidade e etc.
Afinal nas igrejas é facil ouvir pregações insinuando que devemos dar o dízimo para evitar que o devorador destrua todos os nossos bens materiais.
Quantos de nós que estamos envolvido nas igreja não viu este tipo de coisa ? Não importa quanto tempo de “crente” você tem, hoje em dia é comum.
O ensinamento de se barganhar com Deus,e esta presente na maioria dos cultos, manipulam as pessoas através do medo ou através de supostos favores de Deus por ter entregado o dízimo.
A teologia da prosperidade piorou bastante coisa, e a única vantagem desta teologia do cão é que ela nos revela a motivação das pessoas, ai começamos a entender o porque determinadas pessoas fazem o que fazer incluindo pastores. Isto é uma das piores coisas no meio da igreja, aliás, penso que isto já não vem de hoje.
Mas a palavra de Deus declara: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” João 8:32, O conhecimento da palavra de Deus tem que trazer libertação e liberdade e não amarras e cadeis.
– Manipulação das pessoas por posição eclesiástica.
Sou ungido de Deus, me respeite!
“Eu gostaria de informar o irmão que eu sou o Pastor da igreja e não discuta comigo! Você não sabe o que passei para chegar onde cheguei” Isto eu presenciei demais nos Estados Unidos quando fui tocar (Sou baixista) numa igreja que esta de “Bem com a vida” e se declaram apostólicos. Certo dia fui conversar com o líder do louvor sobre umas atitudes com relação a alguns irmãos ele me disse: “Aqui na igreja de bem com a vida usamos da autoridade” no que eu disse: “Lá em Belo Horizonte isto se chama grosseria e manipulação”Existem diversos exemplos que poderiamos citar, se abrirmos para as pessoas mandarem suas experiências poderiamos constatar isto facilmente.

- Campanhas intermináveis para se alcançar a benção de Deus.
 Que, aliás, já as temos. (Efésios 1:3).Esta aconteceu comigo quando conheci minha esposa que era de uma igreja que limitou a atuação de Jesus em quatro coisas somente: Jesus Salva, Cura, liberta, vive e voltará. Fui criado num meio tradicional, ainda que algumas tradições eu nunca vi por lá, e conheci minha esposa numa destas igrejas e de tanto insistir me convenceram a fazer a famigerada corrente das 7 orações, nunca orei tanto na minha vida  rsrs.
Na época eu vivia o cristianismo da expectativa e fiz um monte destas campanhas, que nunca resolveram nada  para mim. Hoje em dia deram uma implementada na coisa e está bem diversificada, temos vale do sal, campanha da gruta, oração dos setenta, Sal grosso, água de cachoeira e por ai vai.

- Favoritismo diante de Deus. Faço mais, mereço mais.
Esta é muito obvia, quanto mais “pago o preço”, mas Deus me abençoa, sabemos que quem busca mais de Deus recebe mais, mas esta de pagar o preço é dureza.
Deus não tem filhos favoritos!

- Eu crente sou abençoado, os que estão fora da igreja são filhos do diabo.

Esta eu ouvi recente, não que não a tenha ouvido antes, mas cai na besteira de visitar uma igreja de um pastor presbiteriano que saiu da denominação, e todos nós sabemos que em meios presbiterianos e Batistas a palavra tem mais consistência. Neste dia o Pastor titular não estava presente e tinha uma destes fazedores de campanhas “Compre um cd e abençoe o ministério do irmão” e o sujeito soltou esta: Você é filho do dono do ouro e da prata!
Você não é como estes filhos do cão que estão lá fora! Doeu nos meus ouvidos e só não sai porque minha esposa segurou meu braço.
Recomendação: Quando não tiver como rejeitar este tipo de convite, leve um mp3 player e uns óculos escuros.

- Manipulação através do medo da perda da salvação e do devorador.
Esta não precisa explicar ou dar exemplos é só ligar sua televisão que você vai ver.
Se manipula as pessoas com dízimos, se manipulam as pessoas dizendo que a igreja é a casa de Deus, se manipula através de correntes intermináveis.
A lista é grande.

- Falsas promessas em nome de Deus.

Muito óbvia não? – Traga seus dízimos que o Senhor lhe dará 100 vezes mais, Curas milagrosas, doações na base da barganha entre outras, para não alongar muito este texto. Os mais desonestos  vão depois ao ministério público dizendo que foram enganados pelo pastor e pela igreja, mas a palavra nos afirma que “Somos enganados pela nossa própria concuspicência”.
O único ponto positivo da teologia da prosperidade é que revela a motivação dos participantes, a maioria está alí é por causa do dinheiro mesmo.

- Confusão Teológica e teologia Vetero-testamentária cantados na época da graça.
Se você já freqüentou um templo evangélico ou assistiu um destes “tele-cultos” com certeza já viu isto, com relação ao dízimo,  transformando o palco em altar ou chamando o local de reunião de casa de Deus ?
Hoje a quantidade de cânticos que tentam costurar o véu que a cruz já rasgou é muito grande, o povo adora velho testamento, não que eu tenha algo contra, mas Jesus aboliu a lei e nos trouxe um novo e melhor pacto.
A música é uma das áreas onde vemos maior divulgação desta teología vetéro-testamentária e por ser músico é uma das que mais me irritam e deixei de tocar com muita gente nos States por causa disto.
Quem presta atenção no que se cantam nas igrejas hoje em dia sabe do que estou falando, porque mesmo depois de extinta a arca da aliança ainda tem gente trazendo a arca, outros ainda tocam no altar e por ai vai, aliás, esta última tem uma que só fala em restituição e um detalhe que no refrão diz assim: “… O que o devorador levou!”. Pelo que eu entendo no texto de Malaquias o devorador levava somente dos infiéis, dos ladrões…
Curiosamente poucos se dão conta do mau que faz á igreja local este tipo de teología, para piorar uns pastores e ministro de louvor ainda dizem: “Irmão você tem que levar em conta a licensa poética!”A licensa poética não nos dá o direito de alterar o que a palavra de Deus diz e muito menos de usar o velho Testamento como compêndio teológico para a igreja local dizendo o que se deve ou não fazer.
Algo que mais me intriga é como os pastores destes irmãos e amigo que fazem apologia vétero-testamentára não vê o mal que isto causa gerando assim uma ambiguidade.
Recentemente um irmão gravou uma canção que diz: “Como Zaqueu, quero subir o mais alto que eu puder só para chamar sua atenção” e no refrão ele diz assim: “Me ensina a ter santidade…
Para começar Zaqueu não subiu em arvóre nenhuma para chamar a atenção de Jesus, subiu sim, mas para ver Jesus, pois Zaqueu era de baixa estatura. Não existe este negócio de aprender a ter santidade. A palavra de Deus diz que somos santificados pela palavra ou seja separados, na maioria das vezes colocam santidade como um padrão moral elevado o que ao invés de atrair o homem até Jesus o afasta por se achar indigno.
A lista de cânticos com conteúdo Vétero Testamentáio  é interminável e se for por tudo aqui não haverá espaço suficiente para tantas aberrações teológicas que se canta nas igrejas hoje em dia, algumas composições acrescentam jugo na vida do povo dizendo que para ser adorador tem que ter uma lista interminável de quesitos sendo que a palavra nos diz que tem que ser em espírito e em verdade.
Hoje para se entender o que se canta é necessário se ter um bom curso teológico, uma boa exegese pois a confusão é muito grande.
Ps.: Não penso que o Velho Testamento se invalidou porque estamos na época da graça, mas usá-lo como compêndio Teológico é demais.

Quando retornei ao Brasil apresentei o Movimento Urbano para um “amigo” meu em primeira mão, por consideração, amizade e porque já tinhamos feito algumas coisas pouco ortodoxas, procure aqui no site por MOVIMENTO URBANO para mais informações, 
ele me disse que não concordava com a proposta que fiz a ele porque ele não conhecia a motivação dos compositores das músicas que usaríamos no que eu respondi que a motivação deles era a mesma de alguns interpretes evangélicos, pois motivação não tem como averiguar, claro que ele discordou de mim no que  eu disse a ele que nós Cristãos éramos muito hipócritas, pois cantamos muitas coisas que não estão na palavra e achamos certo e as músicas não compostas/cantadas por “não Cristãos” era errado. A discussão foi longe porque ele insistia em me dizer que a música era mundana e etc.
Outra justificativa dele é que não queria incentivar o pessoal da igreja dele a ouvir música não cristã e que musica mundana é do diabo e a dos crentes era de Deus. Tenho um artigo interessante com o título
Música secular e Música não cristãonde faço algumas perguntas sobre a possibilidade de se averiguar o que faz uma canção ser evangélica ou não, dê um lida lá por favor e comente.
Concluindo o pensamento dele: Músicas compostas por Crentes já são automáticamente músicas, digamos assim santas, de Deus e músicas compostas por não crentes é automáticamente do diabo!
Simplesmente nào dá para entender este dualismo que ele vive e crê.
- Cristianismo Judaizante – Tudo junto e misturado, como dizem por ai.
Hoje em dia se observa uma grande quantidade de símbolos Judaicos nas igrejas – menorahs, Tallit, bandeiras de Israel. Caso um muçulmano seja compungido pelo Espírito Santo a se congregar numa igreja evangélica ele vai penar para encontrar uma que não tenha nenhum símbolo ofensivo à cultura dele. Eu não tenho nada contra Israel ou os objetos judaicos, mas o evangelho é inclusivo e não exclusivo.
Hoje em dia já não se sabe o que é igreja evangélica ou sinagoga Judaica.

-Sincretismo religioso acentuado.

Muitos elementos de umbanda e Candomblé presente em igrejas de linha pentecostal e Neo – pentecostal.
Assista sua TV depois das 23h00 para poder constatar isto, em alguns casos nem precisa esperar tanto para confirmar o que digo, ou acesse os vídeos no YOUTUBE

- A grande maioria das grandes denominações ao invés de fazerem servos de Deus faz servos defensores da denominação.

Nada contra gostar desta ou daquela denominação, mas favoritismo não esta condiz com a palavra de Deus. Há pouco tempo retornei ao Brasil e grande foi o número de pessoas que me procuraram para me “fisgar” para sua igreja, inclusive meu pai–Ele me disse: Você tem que voltar para a igreja Batista! Eu perguntei o porquê e ele me disse: Você tem que defender a doutrina… E eu claro perguntei de quem era a doutrina se era da igreja Batista ou era de Jesus. Ao final disse a ele que para defender a doutrina não precisava estar na igreja Batista ou qualquer outra denominação, precisava simplesmente tê-la no meu coração. Algo lamentável também é ouvir Batistas dizerem que não abrem para outras denominações participarem da ceia do Senhor porque não era correto colocar gato, macaco e outros bichos na mesma mesa. Em outros tempos eu ouvia minha avó dizer quando encontrava outros crentes pelo caminho que a perguntava se ela era evangélica: Somos Batistas! Batistas da velha convenção. Isto sem contar os que se dizem cheio do fogo, e não de uma igreja fria. Duro não ?
Hoje alguns denominam as igrejas como Igreja fria e Igreja quente, e o interessante que os que mais se dizem ser cheio do Espirito Santo, são os que tem menos amor. Como pode alguém estar cheio do Espirito Santo, cuja essência é o amor e não contagiar as pessoas com este mesmo amor ? 
Meus esforços para redimí-la:
Pois bem, busco estar centrado no que a palavra ensina, apesar de que qualquer grupo se questionado dirá o mesmo. O ser humano tem um problema muito grande com equilíbrio e um das coisas que creio é que devemos voltar a ser uma igreja apostólica como em Atos 2:42, infelizmente estamos mais Apócrifos do que Apostólicos, afinal com tantas linhas teológicas por ai é complicado, e a maioria dos pastores na atualidade não tem sem quer um pré primário teológico :) . Uma vez quando ainda estava nos Estados Unidos ouvi de um amigo americano que foi missionário no Brasil por 30 anos que outro missionário americano o perguntou: Rick você estudou em qual seminário? Ele disse que não tinha feito seminário. O companheiro dele ficou meio que indignado com a resposta e disse:
“Como você pode se tornar missionário sem fazer teologia?” no que ele respondeu, muito bem por sinal.
“Teologia é o estudo do que o homem pensa de Deus e Eu estou mais preocupado em saber o que Deus pensa do homem” 
Ps. Não creio que para ser pastor fazer seminário seja obrigatório, principalmente para os que não têm condições financeiras ou moram em locais que não tem um bom seminário. Mas caso você crê que tem o chamado para o ministério pastoral busque fazer um seminário, pois com certeza o ajudará e muito. Um soldado jamais é enviado à guerra sem o devido preparo.
Minhas exortações:Apocalipse 3:17-22“Porquanto dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; aconselho-te que de mim compres ouro refinado no fogo, para que te enriqueças; e vestes brancas, para que te vistas, e não seja manifesta a vergonha da tua nudez; e colírio, a fim de ungires os teus olhos, para que vejas.Eu repreendo e castigo a todos quantos amo: sê pois zeloso, e arrepende-te.Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.Ao que vencer, eu lhe concederei que se assente comigo no meu trono.Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Fique na paz.
Carlos RizzonWWW.IGREJAURBANA.ORG
“Conectando vidas, Construindo relacionamentos!”

27/09/2011

Asleep in the Light - Keith Green




Analisando as canções "água com açucar" que o mercado gospel impõe como padrão de louvor não custa olhar para o passado e ver que nem sempre foi assim e este vídeo é apenas um exemplo de como o movimento adoracionista tem prejudicado e anestesiado as consciências para um padrão "egoísta e intimista" onde a primeira pessoa "eu" é o que importa. Ex "minha benção", "eu quero subir". "sei que teus olhos sempre atentos permanecem em mim", " Não, este não pode ser teu fim não é o que Deus sonhou pra ti, não podes aceitar", " Bendito eu serei os meus celeiros transbordarão todos verão que sou chamado pelo nome do Senhor" .
Exemplifiquei com algumas cifras, pois podemos estar transformando em dogmas de tanto repetir estas estrofes meladas o Evangelho em um outro "evangelho" sem compromisso, pautado pelos compositores da auto-ajuda que empobrecem espiritualmente uma geração inteira e em contrapartida enriquecem suas contas bancárias.
Quem tem ouvidos ouça.

10/09/2011

Antes de virar escritor, limpava privadas...


William P. Young está no Brasil para a 15ª Bienal do Livro, no Riocentro. Em entrevista ao G1, escritor conta história por trás do best-seller.
Texto de Carla Maneghini publicado originalmente no G1
O escritor William P. Young fará palestra nesta sexta (9) na Bienal (Foto: Divulgação)
Mesmo depois de ter mais de 12 milhões de cópias vendidas de seu livro “A cabana”, o canadense William P. Young afirma que não é exatamente um escritor. “Sou um autor acidental”, diz Young, que está no Rio para participar da 15ª Bienal do Livro. Ele fará uma palestra para fãs nesta sexta-feira (9), às 19h30.
Em entrevista exclusiva ao G1, o autor do best-seller contou a história por trás de “A cabana”, que já foi traduzido para 41 línguas.
“Antes de virar escritor, tinha três empregos. No principal deles, fazia serviços de empacotamento e limpeza em uma fábrica, limpava até privadas”, conta o autor canadense, que escreveu o romance sem intenção de publicá-lo. “Deus tem um grande senso de humor quando planeja nosso destino”, diz.
“Eu sempre gostei de escrever, e minha mulher me deu a ideia de criar uma história para dar de presente para meus filhos no Natal”, lembra Young, que tem seis filhos. “Escrevi e fiz 15 cópias por conta própria para entregar à família e amigos. As crianças não ligaram, mas os amigos gostaram tanto que começaram a mostrar para outras pessoas, e ‘A cabana’ foi se espalhando”, conta.
Infância em cultura tribal
O autor diz que muito de sua história de vida está presente em “A cabana”. Filho de missionários, ele morou dos 10 meses aos 10 anos em Papua Nova Guiné e estudou teologia nos EUA.
“Cresci em uma família religiosa, sempre pensei muito sobre a relação das pessoas com Deus. Mas a convivência em uma cultura tribal durante tanto tempo me fez pensar nessas coisas por uma outra perspectiva”, afirma.  “O romance vem do desejo de criar uma língua por meio da qual as pessoas possam se conectar a Deus sem ser pela religião”, completa.
Ele conta que a influência da cultura de Papua Nova Guiné motivou um dos pontos mais controversos de “A cabana”: o retrato de Deus como uma mulher negra. “Queria me distanciar ao máximo daquela imagem clássica que temos de Deus, como um homem branco e sofredor”, conta o escritor, que afirma ter prazer em ver seu livro gerar polêmica. “São só palavras impressas no papel, o resto está na cabeça de quem lê. Quem me critica, não está falando de mim, está falando de si próprio.”

15/03/2011

Tsunami e uma teologia da compaixão



Por: Marcelo Rosa da Silva

Assisti, com assombro, às imagens do terremoto e do tsunami no Japão. A força do abalo sísmico e o poder das ondas gigantes engolindo tudo de modo avassalador impressionam. Admira-me, também, a capacidade que os japoneses tem de lidar com eventos desse tipo, o preparo que o país tem para diminuir os efeitos dessas catástrofes. Fosse num país pobre, centenas de milhares teriam morrido. Mesmo assim é triste ver que muitos morreram e alguns milhões estão numa situação precária.

Não tenho dúvida que eles conseguirão se reerguer. Um país que já passou por várias tragédias naturais, crises financeiras severas e por duas bombas atômicas, vai se recuperar. Triste mesmo para as famílias que perderam a quem amavam. Para estas, ainda que o país, como um todo, se recupere, o lamento pela perda e a dor por quem se foi vai continuar.

Por outro lado, fico devastado com as afirmações de que Deus desejou tal tragédia para que pessoas se rendam a Jesus e, no fim, tudo redunde em glória para Si. Chego a ver sangue nos olhos de quem sente certo gozo com acontecimentos como o do Japão, vociferando que são “apenas” cumprimento de profecias bíblicas. Não há compaixão pelas pessoas, apenas contentamento em reafirmar “verdades” inquestionáveis. Lamento.

Lamento que, em nome de Deus, se digam palavras tão agressivas e tão desprovidas de compaixão, de amor, que é a essência de Deus. No momento de se tornarem gigantes de misericórdia e solidariedade, se apequenam, tentando defender a idéia de um Deus que determina tragédias e cuja glória se alimenta da dor das pessoas. Esse é um ídolo, não Deus.

Admitir que Deus esteja determinando tudo o que acontece e que nada foge ao seu controle, é jogar na conta de Deus todo o mal do mundo. Se assim fosse, o estupro de uma criancinha seria querido e determinado por Deus, para sua glória. A morte de um filho ainda moço seria algo que redundaria em um bem maior, mesmo que seu pai já fosse um homem piedoso. A fome em países africanos, ou na periferia de nossa cidade, seria algo da vontade de Deus. E não é. Pelo menos não é da vontade do Deus Pai de Jesus Cristo, pleno de amor, que nos chama à compaixão e à solidariedade.

Não, não creio que Deus determinou o terremoto e o tsunami no Japão, foi o movimento das placas tectônicas. Não estamos na Idade Média, sabemos como essas coisas acontecem. Vontade de Deus é que todos sejam compassivos e solidários aos que sofrem todo e qualquer tipo de dor, de longe ou de perto. O que Deus determina é que sejamos como o bom samaritano, que, ao contrário de oficiais da religião da época, que passaram ao largo, cuidou de quem estava agonizando à beira do caminho.

Se nossa teologia não servir para promover a vida e dignificar a pessoa humana, para nada serve. Ou melhor, serve sim, para agudizar a dor dos que já sofrem e alimentar o cinismo de quem pouco se importa.

Fico com o Deus de Jesus Cristo, que se coloca ao lado do que sofre, e, de tanto que ama, sofre também. E me convida a fazer o mesmo, para que minha vida seja uma expressão de seu amor, seja um milagre para os que esperam por ele e, então, sua glória seja manifesta.


Márcio Rosa da Silva via Visão Integral

15/02/2011

Cristo Concreto



Gostaria de acreditar em certas coisas que um dia acreditei, mas isto não é mais possível. Alguém já disse em algum lugar que a fé é semelhante a uma escada cujo degrau de baixo desaparece quando tocamos o de cima.

Foi exatamente isto que aconteceu comigo: coloquei os pés no degrau de cima e o de baixo desapareceu. Agora nada mais resta de hoje para trás, nem mesmo as experiências que um dia julguei espirituais.

Não encontrei espiritualidade na igreja e nem no cristianismo, e jamais poderia tê-la encontrado. Li a Bíblia diversas vezes (de Gênesis à Apocalipse) e não consigo encontrar uma relação de compatibilidade entre o que ela diz e aquilo que a igreja ensina e pratica.

Entre as grandes falácias da igreja cristã, sobretudo a protestante, a maior é a histórica transformação do Jesus Cristo homem concreto em um arquétipo platônico separado das ações reais dos cristãos e das práticas da igreja.

É muito comum dentro da igreja alguém dizer a você para “olhar para Cristo e não para os homens”. Essa frase abjeta e evasiva é muito conveniente para explicar o inexplicável e justificar a atitude dos cristãos que em nada se parecem com aquele de quem dizem ser o seu Senhor e mestre.

Dizer para as pessoas olharem para Cristo e não para os homens (cristãos) é algo semelhante ao conselho hipócrita de um pai que diz para o seu filho não fumar e ele mesmo, sacando um maço de cigarros do bolso, acende um e começa a fumá-lo e soltar cinicamente a fumaça em forma de espirais.

Esse Cristo transcendente, arquetípico, para quem devemos olhar ao mesmo tempo em que ignoramos os homens é uma abstração teórica que jamais poderá ser conhecida pelas pessoas. O Cristo que as pessoas querem conhecer deveria revelar-se nos seus seguidores, naqueles que se dizem seus discípulos.

O Cristo para o qual dizem que eu preciso olhar ao mesmo tempo em que ignoro as barbaridades e falsidades cometidas pelos seus pseudo-seguidores, não passa de uma idéia no melhor estilo platônico. Ele é só um conceito eclesiástico, uma abstração criada por uma instituição falida!

Esse Cristo metafísico, afastado do mundo, com nojo de tudo e de todos, não passa de uma anomalia teológica, de uma criação monstruosa com cara de bom samaritano. O Jesus Cristo de quem fala a Bíblia nos evangelhos não é um “ghost”, como deseja a igreja.

Os discípulos citados na primeira epístola de João “viam, tocavam e apalpavam” o Cristo, o verbo da vida. Entretanto, o Cristo da igreja contemporânea é muito rarefeito para ser visto nas ações dos cristãos, para ser tocado; ele é um fantasma, uma aparição, um conceito e não um ser real passível de materialização.

A igreja citada no livro dos Atos dos Apóstolos “caiu na graça” do povo porque vivia de forma comunitária e manifestava o amor em atitudes concretas ao invés de ensinar conceitos vazios criados para justificar o injustificável.

O Cristo só está vivo quando se materializa nos seus discípulos!

O Jesus Cristo da igreja é o messias da superestrutura, é o senhor invisível deslocado do cotidiano, ausente do dia-a-dia, alheio aos maus exemplos dos seus falsos seguidores. Esse Cristo eu desprezo, não tenho e nem quero ter qualquer relação com ele!

Contudo, tenham certeza de que não pronuncio estas palavras objetivando proferir um discurso moralista ou pseudo-espiritual. O problema é que não acredito mais nesses jargões vazios que não passam de desculpa para justificar a maledicência que os verdadeiros discípulos do Cristo há muito já deixaram para trás!

André Pessoa

18/01/2011

TRAGÉDIA e ACIDENTE: gente ficou ferida e outros morreram!





Uma tragédia acontecera. Pilatos misturara o sangue de alguns Galileus com o sangue dos sacrifícios que eles ofereciam em seu culto fora de lugar, fora do Templo de Jerusalém.

Outra tragédia aconteceu logo depois. A torre do Tanque de Siloé desabou e matou as 18 pessoas que lá estavam.

Jesus estava andando pelo país...

Então, chegaram as notícias.

O Senhor soube? Soube o que Pilatos fez? Soube o que houve com os crentes na torre que caiu?”

Eles queriam um juízo, uma explicação, uma condenação, uma lógica moral. Afinal, esse negócio de tragédia — pensam os crentes —, é coisa para descrente e para crente em pecado; pois, a teologia dos crentes sempre foi a dos “amigos de Jó”: tragédia é o fruto do pecado; e é sempre juízo de Deus contra o pecador.

Sim! Desse modo pensam sempre os crentes, exceto quando a casa que cai é a deles!

Mas quando a casa cai e a residência é a do descrente ou a do crente “desviado ou em pecado”, então, está tudo explicado!

Jesus, porém, ouviu as insinuações que as “questões” induziam ao pensar, e, sem falar delas, apenas disse:

Vocês pensam que os Galileus da tragédia eram mais pecadores do que os demais Galileus que não morreram? Ou que aqueles 18 sobre os quais a torre caiu eram mais pecadores do que os demais habitantes de Jerusalém? Em verdade eu digo a vocês não eram. Mas se vocês não se arrependerem, todos igualmente perecerão”.

Para Jesus telhados que caem são apenas telhados que caem; e podem cair sobre a cabeça de qualquer um. Para cair, basta estar no alto, e, para matar, basta que haja gente em baixo.

No entanto, sabendo como os “crentes das noticias de tragédias” são como pessoas, Jesus apenas disse:

Não é o modo da morte que conta. É o modo da vida que conta. Se vocês continuarem a viver assim, morrendo, sem Deus, porém cheios de religião, ainda que vocês morram de velhos, todos, todavia, independentemente do modo da morte, perecereis para a eternidade; posto que cuidaram apenas de julgarem os mortos, e não aprenderam a viver a vida dos vivos!

Não importa o modo da morte. Importa sim o modo da vida; pois, se não mudarmos de mente, todos,igualmente, veremos não um céu de gesso, como o da Renascer, cair na nossa cabeça, mas veremos os céus mesmo, desabando sobre nós e sobre nossas incuráveis arrogâncias.

Oro por todos. Por todos mesmo: os acidentados, os feridos, os enlutados, os aflitos...

Oro também para que, não pelo telhado ou pelas mortes, mas pela vida, que os responsáveis espirituais por este povo agora ainda mais perdido e confuso convertam-se à vida que é; e que não é como eles ensinam ao povo que seja; e a prova disso é que os telhados caem e não há ninguém que possa decretar ao contrário.

O convite de Jesus não é para que se pondere sobre as tragédias, mas sim sobre a vida que nunca é trágica, mesmo quando as tragédias se abatem sobre ela.

Sim! Tal vida não julga a Graça de Deus por dinheiro, prosperidade ou sucesso humano; mas, exclusivamente, pelo testemunho de coerência com o Evangelho, ainda que se esteja morrendo a morte mais louca e insana, como a de João Batista, cuja cabeça foi servida em um prato a fim de que Herodes fizesse a corte de uma jovem que ele desejava ‘comer’ como quem come um pedaço de picanha.

Silêncio! O Senhor está no Seu Santo Templo! Cale-se diante Dele toda a Terra!


Nele,


Caio
19 de janeiro de 2009
Lago Norte
Brasília
DF

10/08/2010

A Nova Reforma Protestante

 

Matéria publicada no dia 9 de agosto de 2010

Inspirado no cristianismo primitivo e conectado à internet, um grupo crescente de religiosos critica a corrupção neopentecostal e tenta recriar o protestantismo à brasileira.
Rani Rosique não é apóstolo, bispo, presbítero nem pastor. É apenas um cirurgião geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rondônia. No alpendre da casa de uma amiga professora, ele se prepara para falar. Cercado por conhecidos, vizinhos e parentes da anfitriã, por 15 minutos Rosique conversa sobre o salmo primeiro (“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”). Depois, o grupo de umas 15 pessoas ora pela última vez – como já havia orado e cantado por cerca de meia hora antes – e então parte para o tradicional chá com bolachas, regado a conversa animada e íntima.

                                                                                  

Desde que se converteu ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia em 1969, Rosique pratica sua fé assim, em pequenos grupos de oração, comunhão e estudo da Bíblia. Com o passar do tempo, esses grupos cresceram e se multiplicaram. Hoje, são 262 espalhados por Ariquemes, reunindo cerca de 2.500 pessoas, organizadas por 11 “supervisores”, Rosique entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com uma única característica comum: são crentes mais experientes.

O cirurgião Irani Rosique (sentado, de camisa branca, com a Bíblia aberta no colo). Sem cargo de clérigo, ele mobiliza 2.500 pessoas no interior de Rondônia

Apesar de jamais ter participado de uma igreja nos moldes tradicionais, Rosique é hoje uma referência entre líderes religiosos de todo o Brasil, mesmo os mais tradicionais. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã, vindos de igrejas que há 20 anos não lhe responderiam um telefonema. Ele pode ser visto como um “símbolo” do período de transição que a igreja evangélica brasileira atravessa. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com o Divino muito diferente daquela divulgada nos horários pagos da TV.

Estima-se que haja cerca de 46 milhões de evangélicos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando havia menos de 3 milhões de fiéis espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como históricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na década de 1960, a hegemonia passou para as mãos dos pentecostais, que davam ênfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explosão numérica evangélica deu-se na década de 1980, com o surgimento das denominações neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a “teologia da prosperidade” (leia o quadro abaixo). Há quem aposte que até 2020 metade dos brasileiros professará à fé evangélica.



Dentro do próprio meio, levantam-se vozes críticas a esse crescimento. Segundo elas, esse modelo de igreja, que prospera em meio a acusações de evasão de divisas, tráfico de armas e formação de quadrilha, tem sido mais influenciado pela sociedade de consumo que pelos ensinamentos da Bíblia. “O movimento evangélico está visceralmente em colapso”, afirma o pastor Ricardo Gondim, da igreja Betesda, autor de livros como Eu creio, mas tenho dúvidas: a graça de Deus e nossas frágeis certezas (Editora Ultimato). “Estamos vivendo um momento de mudança de paradigmas. Ainda não temos as respostas, mas as inquietações estão postas, talvez para ser respondidas somente no futuro.”


Nos Estados Unidos, a reinvenção da igreja evangélica está em curso há tempos. A igreja Willow Creek de Chicago trabalhava sob o mote de ser “uma igreja para quem não gosta de igreja” desde o início dos anos 1970. Em São Paulo, 20 anos depois, o pastor Ed René Kivitz adotou o lema para sua Igreja Batista, no bairro da Água Branca – e a ele adicionou o complemento “e uma igreja para pessoas de quem a igreja não costuma gostar”. Kivitz é atualmente um dos mais discutidos pensadores do movimento protestante no Brasil e um dos principais críticos da“religiosidade institucionalizada”. Durante seu pronunciamento num evento para líderes religiosos no final de 2009, Kivitz afirmou: “Esta igreja que está na mídia está morrendo pela boca, então que morra. Meu compromisso é com a multidão agonizante, e não com esta igreja evangélica brasileira.”

Essa espécie de “nova reforma protestante” não é um movimento coordenado ou orquestrado por alguma liderança central. Ela é resultado de manifestações espontâneas, que mantêm a diversidade entre as várias diferenças teológicas, culturais e denominacionais de seus ideólogos. Mas alguns pontos são comuns. O maior deles é a busca pelo papel reservado à religião cristã no mundo atual. Um desafio não muito diferente do que se impõe a bancos, escolas, sistemas políticos e todas as instituições que vieram da modernidade com a credibilidade arranhada. “As instituições estão todas sub judice”, diz o teólogo Ricardo Quadros Gouveia, professor da Universidade Mackenzie de São Paulo e pastor da Igreja Presbiteriana do Bairro do Limão. “Ninguém tem dúvida de que espiritualidade é uma coisa boa ou que educação é uma coisa boa, mas as instituições que as representam estão sob suspeita.”

Uma das saídas propostas por esses pensadores é despir tanto quanto possível os ensinamentos cristãos de todo aparato institucional. Segundo eles, a igreja protestante (ao menos sua face mais espalhafatosa e conhecida) chegou ao novo milênio tão encharcada de dogmas, tradicionalismos, corrupção e misticismo quanto a Igreja Católica que Martinho Lutero tentou reformar no século XVI. “Acabamos nos perdendo no linguajar ‘evangeliquês’, no moralismo, no formalismo, e deixamos de oferecer respostas para nossa sociedade”, afirma o pastor Miguel Uchôa, da Paróquia Anglicana Espírito Santo, em Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife. “É difícil para qualquer pessoa esclarecida conviver com tanto formalismo e tão pouco conteúdo.”

Uchôa lidera a maior comunidade anglicana da América Latina. Seu trabalho é reconhecido por toda a cúpula da denominação como um dos mais dinâmicos do país. Ele é um dos grandes entusiastas do movimento inglês Fresh Expressions, cujo mote é “uma igreja mutante para um mundo mutante”. Seu trabalho é orientar grupos cristãos que se reúnem em cafés, museus, praias ou pistas de skate. De maneira genérica, esses grupos são chamados de “igreja emergente” desde o final da década de 1990. “O importante não é a forma”, afirma Uchôa. “É buscar a essência da espiritualidade cristã, que acabou diluída ao longo dos anos, porque as formas e hierarquias passaram a ser usadas para manipular pessoas. É contra isso que estamos nos levantando.”

No meio dessa busca pela essência da fé cristã, muitas das práticas e discursos que eram característica dos evangélicos começaram a ser considerados dispensáveis. Às vezes, até condenáveis. Em Campinas, no interior de São Paulo, ocorre uma das experiências mais interessantes de border=0>recriação de estruturas entre as denominações históricas. A Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera não tem um templo. Seus frequentadores se reúnem em dois salões anexos a grandes condomínios da cidade e em casas ao longo da semana. Aboliram a entrega de dízimos e as ofertas da liturgia. Os interessados em contribuir devem procurar a secretaria e fazê-lo por depósito bancário – e esperar em casa um relatório de gastos. Os sermões são chamados, apropriadamente, de “palestras” e são ministrados com recursos multimídias por um palestrante sentado em um banquinho atrás de um MacBook. A meditação bíblica dominical é comumente ilustrada por uma crônica de Luis Fernando Verissimo ou uma música de Chico Buarque de Hollanda.

“Os seminários teológicos formam ministros para um Brasil rural em que os trabalhos são de carteira assinada, as famílias são papai, mamãe, filhinhos e os pastores são pessoas respeitadas”, diz Ricardo Agreste (foto ao lado), pastor da Comunidade e autor dos livros Igreja? Tô fora e A jornada (ambos lançados pela Editora Socep). “O risco disso é passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais nos faz. Há muita gente séria, claro, dizendo verdades bíblicas, mas presas a um formato ultrapassado.”

Outro ponto em comum entre esses questionadores é o rompimento declarado com a face mais visível dos protestantes brasileiros: os neopentecostais. “É lisonjeador saber que atraímos gente com formação universitária e que nos consideram ‘pensadores ”, afirma Ricardo Agreste. “O grande problema dos evangélicos brasileiros não é de inteligência, é de ética e honestidade.” Segundo ele, a velha discussão doutrinária foi substituída por outra. “Não é mais uma questão de pensar de formas diferentes a espiritualidade cristã”, diz. “Trata-se de entender que há gente usando vocabulário e elementos de prática cristã para ganhar dinheiro e manipular pessoas.”

Esse rompimento da cordialidade entre os evangélicos históricos e os neopentecostais veio a público na forma de livros e artigos. A jornalista (evangélica) Marília Camargo César publicou no final de 2008 o livro Feridos em nome de Deus(Editora Mundo Cristão), sobre fiéis decepcionados com a religião por causa de abusos de pastores. O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, publicou O que estão fazendo com a Igreja: ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro (Mundo Cristão), retrato desolador de uma geração cindida entre o liberalismo teológico, os truques de marketing, o culto à personalidade e o esquerdismo político. Em um recente artigo, o presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas, João Flavio Martinez, definiu como “macumba para evangélico” as práticas místicas da Igreja Universal do Reino de Deus, como banho de descarrego e sabonete com extrato de arruda.

Tais críticas, até pouco tempo atrás, ficavam restritas aos bastidores teológicos e às discussões internas nas igrejas. Livros mais antigos – como Supercrentes, Evangélicos em crise, Como ser cristão sem ser religioso e O evangelho maltrapilho (todos da editora Mundo Cristão) – eram experiências isoladas, às vezes recebidos pelos fiéis como desagregadores. “Parece que a sociedade se fartou de tanto escândalo e passou a dar ouvidos a quem já levantava essas questões há tempos”, diz Mark Carpenter, diretor-geral da Mundo Cristão.

Procurado por ÉPOCA, Geraldo Tenuta, o Bispo Gê, presidente nacional da Igreja Renascer em Cristo, preferiu não entrar em discussões. “Jesus nos ensinou a não irmos contra aqueles que pregam o evangelho, a despeito de suas atitudes”, diz ele. “Desde o início, éramos acusados disto ou daquilo, primeiro porque admitíamos rock no altar, depois porque não tínhamos usos e costumes. Isso não nos preocupa. O que não é de Deus vai desaparecer, e não será por obra dos julgamentos.” A Igreja Universal do Reino de Deus – que, na terceira semana de julho, anunciou a construção de uma “réplica do Templo de Salomão” em São Paulo, com “pedras trazidas de Israel” e “maior do que a Catedral da Sé” – também foi procurada por ÉPOCA para comentar os movimentos emergentes e as críticas dirigidas à igreja. Por meio de sua assessoria, o bispo Edir Macedo enviou um e-mail com as palavras: “Sem resposta”.

O sociólogo Ricardo Mariano, autor do livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Editora Loyola), oferece uma explicação pragmática para a ruptura proposta pelo novo discurso evangélico. Ateu, ele afirma que o objetivo é a busca por uma certa elite intelectual, um público mais bem informado, universitário, mais culto que os telespectadores que enchem as igrejas populares. “Vivemos uma época em que o paciente pesquisa na internet antes de ir ao consultório e é capaz de discutir com o médico, questionar o professor”, diz. “Num ambiente assim, não tem como o pastor proibir nada. Ele joga para a consciência do fiel.”

A maior parte da movimentação crítica no meio evangélico acontece nas grandes cidades. O próprio pastor Kivitz afirma que “talvez não agisse da mesma forma se estivesse servindo alguma comunidade em um rincão do interior” e que o diálogo livre entre púlpito e auditório passa, necessariamente, por uma identificação cultural. “As pessoas não querem dogmas, elas querem honestidade”, diz ele. “As dúvidas delas são as minhas dúvidas. Minha postura é, juntos, buscarmos respostas satisfatórias a nossas inquietações.”

Por isso mesmo, Ricardo Mariano não vê comparação entre o apelo das novas igrejas protestantes e das neopentecostais. “O destino desses líderes será ‘pescar no aquário’, atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia dúzia de pessoas”, diz ele. De acordo com o presbiteriano Ricardo Gouveia, “não há, ou não deveria haver, preocupação mercadológica” entre as igrejas históricas. “Não se trata de um produto a oferecer, que precise ocupar espaço no mercado”, diz ele. “Nossa preocupação é simplesmente anunciar o evangelho, e não tentar ‘melhorá-lo’ ou torná-lo mais interessante ou vendável.”

O advento da internet foi fundamental para pastores, seminaristas, músicos, líderes religiosos e leigos decidirem criar seus próprios sites, portais, comunidades e blogs. Um vídeo transmitido pela Igreja Universal em Portugal divulgando o Contrato da fé – um “documento”, “autenticado” pelos pastores, prometendo ao fiel a possibilidade de se “associar com Deus e ter de Deus os benefícios” – propagou-se pela rede, angariando toda sorte de comentários. Outro vídeo, em que o pregador americano Moris Cerullo, no programa do pastor Silas Malafaia, prometia uma “unção financeira dos últimos dias” em troca de quem “semear” um “compromisso” de R$ 900 também bombou na rede. Uma cópia da sentença do juiz federal Fausto De Sanctis (lembre AQUI) condenando os líderes da Renascer Estevam e Sônia Hernandes por evasão de divisas circulou no final de 2009. De Sanctis afirmava que o casal “não se lastreia na preservação de valores de ética ou correção, apesar de professarem o evangelho”. “Vergonha alheia em doses quase insuportáveis” foi o comentário mais ameno entre os internautas.

Sites como Pavablog, Veshame Gospel, Irmãos.com, Púlpito Cristão, Caiofabio.net ou Cristianismo Criativo fazem circular vídeos, palestras e sermões e debatem doutrinas e notícias com alto nível de ousadia e autocrítica. De um grupo de blogueiros paulistanos, surgiu a ideia da Marcha pela ética, um protesto que ocorre há dois anos dentro da Marcha para Jesus (evento organizado pela Renascer). Vestidos de preto, jovens carregam faixas com textos bíblicos e frases como “O $how tem que parar” e “Jesus não está aqui, ele está nas favelas”.


A maior parte desses blogueiros trafega entre assuntos tão diversos como teologia, política, televisão, cinema e música popular. O trânsito entre o “secular” e o “sagrado” é uma das características mais fortes desses novos evangélicos. “A espiritualidade cristã sempre teve a missão de resgatar a pessoa e fazê-la interagir e transformar a sociedade”, diz Ricardo Agreste. “Rompemos o ostracismo da igreja histórica tradicional, entramos em diálogo com a cultura e com os ícones e pensamento dessa cultura e estamos refletindo sobre tudo isso.”

Em São Paulo, o capelão Valter Ravara criou o Instituto Gênesis 1.28, uma organização que ministra cursos de conscientização ambiental em igrejas, escolas e centros comunitários. “É a proposta de Jesus, materializar o amor ao próximo no dia a dia”, afirma Ravara. “O homem sem Deus joga papel no chão? O cristão não deve jogar.” Ravara publicou em 2008 a Bíblia verde, com laminação biodegradável, papel de reflorestamento e encarte com textos sobre sustentabilidade.

A então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, escreveu o prefácio da Bíblia verde. Sua candidatura à Presidência da República angariou simpatia de blogueiros e tuiteiros, mas não o apoio formal da Assembleia de Deus, denominação a que ela pertence. A separação entre política e religião pregada por Marina é vista como um marco da nova inserção social evangélica. O vereador paulistano e evangélico Carlos Bezerra Jr. afirma que o dever do político cristão é “expressar o Reino de Deus” dentro da política. “É o oposto do que fazem as bancadas evangélicas no Congresso, que existem para conseguir facilidades para sua denominação e sustentar impérios eclesiásticos”, diz ele.

O raciocínio antissectário se espalhou para a música. Nomes como Palavrantiga, Crombie, Tanlan, Eduardo Mano, Helvio Sodré e Lucas Souza se definem apenas como “música feita por cristãos”, não mais como “gospel”. Eles rompem os limites entre os mercados evangélico e pop. O antissectarismo torna os evangélicos mais sensíveis a ações sociais, das parcerias com ONGs até uma comunidade funcionando em plena Cracolândia, no centro de São Paulo. “No fundo, nossa proposta é a mesma dos reformadores”, diz o presbiteriano Ricardo Gouveia. “É perceber o cristianismo como algo feito para viver na vida cotidiana, no nosso trabalho, na nossa cidadania, no nosso comportamento ético, e não dentro das quatro paredes de um templo.”

A teologia chama de “cristocêntrico” o movimento empreendido por esses crentes que tentam tirar o cristianismo das mãos da estrutura da igreja – visão conhecida como “eclesiocêntrica” – e devolvê-lo para a imaterialidade das coisas do espírito. É uma versão brasileiramente mais modesta do que a Igreja Católica viveu nos tempos da Reforma Protestante. Desta vez, porém, dirigida para a própria igreja protestante. Depois de tantos desvios, vozes internas levantaram-se para propor uma nova forma de enxergar o mundo. E, como efeito, de ser enxergadas por ele. Nas palavras do pastor Kivitz: “Marx e Freud nos convenceram de que, se alguém tem fé, só pode ser um estúpido infantil que espera que um Papai do Céu possa lhe suprir as carências. Mas hoje gostaríamos de dizer que o cristianismo tem, sim, espaço para contribuir com a construção de uma alternativa para a civilização que está aí. Uma sociedade que todo mundo espera, não apenas aqueles que buscam uma experiência religiosa”.

Fonte: Revista Época


17/06/2010

Vinho novo, odres novos

Por Ed René Kivitz




Não sem motivo, a crítica às igrejas chamadas tradicionais cresce a cada dia. Por igrejas tradicionais me refiro àquelas vítimas do tradicionalismo (aqui sempre fizemos as coisas desse jeito!), legalismo (aqui as boas doutrinas e o bom comportamento valem mais do que as boas pessoas, até porque, exceto nós, não existem boas pessoas!) e do formalismo (silêncio, você está na casa do Senhor!).



A resposta que se dá a esse cenário é múltipla. Há os que abandonam a vida comunitária e passam a caminhar sozinhos, de roda em roda e de bar em bar, chamando de igreja qualquer reunião de chopp entre dois ou três cristãos, ou tentando cultivar a piedade na virtualidade por meio de mp3, podcasts, cultos online e afins. Há também os que escolhem formar grupos informais, que se reúnem regularmente, por exemplo, no cyber-espaço, nas lanchonetes, pátios de universidades, auditórios alugados para fins de semana e, principalmente, nas casas dos cristãos, que funcionam como mini-auditórios para enc ontros informais ao redor da mesa.



A maioria dessas pessoas, ou teve uma experiência negativa com as igrejas chamadas tradicionais ou dela foram banidas contra a sua vontade e, por esta razão, buscaram novos jeitos de ser igreja. Poucas fizeram uma opção deliberada de rompimento justificado pela busca de uma espiritualidade mais autêntica e mais profunda.



O fato é que, independentemente das razões pelas quais se reúnem fora dos horizontes institucionais tradicionais, há algo que precisa ser sublinhado: a maioria dessas pessoas é vítima de uma mentalidade religiosa nociva e obsoleta. Do lado de fora das igrejas tradicionais existe um contingente imenso de pessoas que, com a mesma intensidade com que busca a Deus, rejeita a incoerência, a hipocrisia e os desmandos das estruturas de poder eclesiástico.



Por outro lado, há também uma característica comum a esses grupos informais: a maioria acredita que o fato de estarem fora das igrejas chamadas tradicionais implica a natural participação e experiência do que Jesus chamou de “odres novos”. Não devemos confundir odres novos com novas formas de igreja. O odre novo capaz de conter o vinho novo do evangelho é a nova mentalidade, gerada pela experiência da graça de Deus, e não uma nova instituição ou nova forma de organização de pessoas.



Qualquer forma e sistema que se pretenda oferecer para conter o vinho novo do Evangelho da graça será um odre velho, pois o vinho novo está derramado sobre todos os que foram feitos livres pelo sopro do Espírito de Deus, que sopra onde quer. O vinho novo, portanto, está presente em, e por meio de, todos os que nasceram da água e do Espírito, e se manifesta em todo lugar, todo tempo, por meio de tudo o que fazem, qualquer que seja a instituição, estrutura eclesiástica ou forma organizacional em que estejam.



Ouço muita gente dizer que os “odres novos” são equivalentes a estruturas organizacionais mais leves, ágeis, flexíveis, não engessadas e assim por diante. Mas a questão é que qualquer estrutura é odre velho, pois o Evangelho não visa a gerar novas instituições, mas pessoas novas. O “odre novo”, meu irmão, minha irmã, é você, sua cabeça e seu coração. O que passa disso é ilusão e destruição, pois, de fato, “ninguém põe vinho novo em odre velho; se o fizer, o odre rebentará, o vinho se derramará e odre se estragará. Ao contrário, põe-se vinho novo em odre novo; e ambos se conservam”.



Ibab, via PAVABLOG

10/06/2010

Por Quê Eu Desisiti de Servir aos Pobres




Em tempos onde a lógica são mensagens de satisfação das necessidades pessoais, via teologia da (falsa) prosperidade, um reflexão que desconstrói a prática do Bom Samaritano como ato de conduzir o próximo para aquilo que internalizamos como "segurança" e que geralmente mascara a pobreza que existe dentro de cada um de nós. Um texto que deve ser lido e divulgado. Boa leitura.

Por Cláudio Oliver

Quem me conhece e sabe de toda minha trajetória de vida deve achar no mínimo curioso o título acima. Minha família tem como referência central as figuras de meu avô e minha avó paternos que foram fundadores do Exército da Salvação no Brasil. Vidas dedicadas a mendigos, prostitutas, e de maneira especial aos orfãos, enfermos e renegados. Minha paixão adolescente se viu conquistada por lutas contra a pobreza, a fome e a injustiça e desde quando me casei, há 25 anos atrás, estive envolvido com servir em favelas, a estudantes pobres, populações carentes, mendigos, bairros periféricos, desempregados e pessoas sem renda. Tenho no currículo o fato de ter ajudado a gerar renda, facilitar a organização de famílias, feito pontes entre ricos e pobres, alimentado pessoas e dado a oportunidade de que outros descobrissem profissões, estudassem e transformassem seu futuro. “Empoderar” as pessoas, foi um dia um dos pontos chave de minha prática de não criar dependência. Depois de tudo isso, sou chamado a questionar toda a vida e a desistir de servir aos pobres.




Ao longo da vida guardo o hábito de sempre perguntar se o que estou fazendo tem sentido, se diante de meu Senhor e Deus estou com meu coração alinhado à Sua vontade, se não estou errando o alvo. Sigo com disciplina a regra dos três “por quês”, que pergunta a cada resposta dada o tipo de pergunta que só as crianças sabem fazer e que me auxilia a gerar um vetor de mudança permanente, de auto-crítica e de realinhamentos pessoais. Assim, a cada etapa, ao fazer cada coisa pergunto: Por quê? E qualquer que seja a resposta, a ela de novo pergunto: Por quê? Me sinto no caminho quando aquilo que faço ultrapassar o terceiro por quê, e daí sigo adiante.



Já faz algum tempo me pus a refletir sobre a vida de Jesus, sobre o princípio da Kenosis, ou esvaziamento, baseado no texto de Filipenses 2:1-11, sobre a encarnação de Jesus na realidade e sobre os inúmeros contatos e conversas dele com gente tão miserável como os leprosos e tão ricas como publicanos, chefes de sinagoga e príncipes de seu povo; com famílias da classe média, com proprietários e com servos e mendigos. Sobre o que ele via e como agia. E tudo isso foi crescendo e me fazendo pensar no texto de Mateus 5, de ele dizer aos pobres que mantivessem suas vidas no caminho e animados por serem pobres, por que deles era a possibilidade de terem a vida dirigida e controlada por Deus e perceberem Sua boa e perfeita vontade.



Devagar, nos últimos anos, além da reflexão bíblica, tenho observado o quanto vários amigos extremamente sinceros vem e vão, se empolgam e começam a servir e logo se ocupam de volta com seus afazeres e preocupações. Vejo também com que freqüência alguns outros pagam para que alguém cumpra o serviço de Deus e fazem isso por tempos determinados e movidos da maior das sinceridades, ainda que de longe e sem envolvimento pessoal.



De uma outra perspectiva observo o quanto a pobreza se entranha na vida dos pobres, e quanto esta somente revela muitas vezes seu desejo mal sucedido de possuir, de ter acesso ao consumo destruidor de tudo, de como sua situação se constrói pela sedução das mesmas coisas que seduzem e destroem os ricos. O mesmo individualismo, o mesmo egoísmo, a mesma tendência a sentir-se confortável e identificado com a posse das coisas. E a adesão inegociável a um estilo de vida e modo de pensar que os prende ao mito da necessidade moderna, ao desejo mítico de evoluir e à submissão ao mito do desenvolvimento.



Igualmente a ricos, pobres e remediados, o mesmo convencimento de que o que precisam é de algo que o mercado, o dinheiro, o governo ou alguma agência pode lhes oferecer. Que serão felizes com a posse, com a pança cheia (uns com pão, outros com brioches) e com o fluir permanente do dinheiro que tudo pode e tudo resolve. E dentre estes, alguns bem intencionados estendem a mão para “incluir” outros no estilo de vida ou no patamar que alcançaram. À mão estendida de cima para baixo, chamamos serviço.



Descobri ao longo dos anos que a própria posição de servir aos pobres, de compromisso com a libertação, estava cheia de superioridade, daquele tipo de superioridade que se traduz por dar ao outro o que eu tenho, uma vez que sutilmente assumo com meus atos que o que eu tenho ou faço era o que ele deveria ter ou fazer, uma tradução percebida na sutil arrogância das tais políticas de “inclusão”, sempre buscando colocar o outro dentro da caixa onde vivo, incluído no meu estilo de vida.



Tudo isso foi me levando a desistir de servir os pobres. Ainda que nem de longe me alinhando com aqueles que a este ponto, do alto de sua riqueza, conforto e bem estar possam estar dizendo “ta vendo? É isso que eu sempre pensei.” Lamento informar a estes que nem de longe creio em seu estilo de vida separado do contato com o pobre, com o desvalido, o faminto, o nu, o feio, o mal cheiroso, o inculto e o bárbaro. Não me alinho com aqueles que pagam seus impostos ou contribuem para caridade dizendo assim estar cumprindo seu papel. Não é disso que falo. A estes continuo retransmitindo a mensagem de Jesus, confrontadora de seu estilo de vida cego, insensível e arrogante, uma mensagem que chama de loucura aquilo que estes chamam de segurança.



Desisti de servir os pobres por outra razão.



Desde 1993, quando saí para as ruas com um bando de meninos e meninas na direção das populações de rua, havia desenvolvido uma mística de, a cada saída nas noites frias de minha cidade, não ir encontrar mendigos, ou carentes. Sempre dizia aos garotos àquela época que eu nunca me disporia a servir pão a um mendigo, ou fazer-lhe a cama, ou vestir sua nudez. Nosso moto, naquele tempo, era “encontrando Jesus na pessoa do pobre mais pobre”. Servir, alimentar e vestir Jesus era nossa motivação, isso sim me animava. E descobrimos com aquelas saídas, que a cada encontro desse com um Jesus assim disfarçado, que os chamados miseráveis se transformavam em mestres, em denunciadores de nossa miséria pessoal, de desmascaradores de nossos mecanismos de manipulação e nos víamos, de repente, espelhados neles, usando as mesmas desculpas, mentiras e escaramuças para ter o que queríamos. Talvez com um pouco mais de sucesso, e certamente simplesmente com mais sorte social, e mecanismos de segurança. Mas descobrimos à época, que nós éramos eles.



Aqueles que se descobriram assim, se libertaram, cresceram e mudaram. Confrontados por Jesus e ensinados por ele no contato com suas próprias pobrezas e misérias, descobrimos, muitos de nós, o que eram boas novas. Naquele tempo, e daquele tempo, muitos fomos transformados pelo toque de Jesus e pela boa nova que ele nos tinha a transmitir como pobres que nos descobrimos.



No entanto, nem sempre esta mística foi mantida como chama acesa, voltei tantas vezes a servir aos pobres, a me deixar levar pela possibilidade de estar na posição de ajudador e fui me esquecendo muitas vezes de minha própria miséria.



Como disse acima, ficar longe dos pobres e julgar suas atitudes e descaminhos do alto do conforto de minha posição social superior não é a alternativa que exponho aqui. Ajudar os pobres, conscientiza-los e inclui-los se mostra um mito, mais um daqueles nascidos no desenvolvimentismo dos últimos 60 anos. A alternativa que apresento é outra, traduzida no encontro, no reconhecimento e na identificação.



Desisti de ajudar os pobres, de servi-los e de salva-los. E isso porque tenho re-descoberto uma verdade dura: a de que Jesus não tem nenhuma boa notícia para quem serve os pobres. Jesus não veio trazer boas notícias a quem serve os pobres, ele trouxe uma boa notícia aos pobres. Ele não tem nada a dizer a outros salvadores, a quem disputa com Ele o cargo de Messias, de Redentor. A agenda de Jesus só traz uma mensagem aos que se reconhecem pobres, nus, feridos, cansados, sobrecarregados, carentes e sem esperança. Aos demais, sua agenda tem pouco ou nada a oferecer



A única maneira de permanecer com os pobres é se descobrimos que somos nós mesmos os miseráveis, é se reconhecemos a nós mesmos, ainda que bem disfarçados, naquele que está diante de nossos olhos. Ao encontrarmos neles nossa miséria, ao nos dar-mos conta de nossa carência, da desesperada necessidade de sermos salvos, ai nos encontramos com a agenda de Jesus.



Deus não se apresenta em nossa capacidade de curar, mas em nossa necessidade de sermos curados. Descobrir esta nossa fraqueza nos coloca sem nada para oferecer, servir, doar, mas revela nossa necessidade de sermos amados, curados e restaurados.



Por ai é que faz sentido que o poder que existe em nós não é o poder de nossas capacidades e riqueza, mas o poder residente em nossa miséria pessoal, tão bem escondida e disfarçada em nossas posses e estabilidade. Como diz Jean Vanier em um livro que li recentemente: “Somos chamados a descobrir que Deus pode trazer paz, compaixão e amor através de nossas feridas”



Como passou a fazer sentido o texto que fala do Messias, e que diz: pelas suas pisaduras, fomos sarados. Os demais messias tendem a escapar do exemplo de Jesus de esvaziar-se a tal ponto de ser um de nós, de morrer conosco e de abrir assim a porta da ressurreição para nós.



O poder que Jesus usou para nos curar e continuar curando não reside em seu acesso ao poder universal, mas em sua identificação conosco na cruz. Em se abrir em chagas e feridas, em se tornar um de nós, em viver nossa vida.



Desisti de servir aos pobres. Estou voltando a encontrar os pobres e me encontrar neles. Voltei a descobrir a miséria que se esconde nas vidas bem montadas de nossa falsa segurança. E com isso posso entender o Jesus que fala com leprosos e com ricos homens de negócios, com cobradores de impostos em suas festas e com enfermos miseráveis. Em sua identificação com todos e cada um Ele via o que talvez mais ninguém via: a extrema miséria e pobreza da condição humana, independente de qualquer status ou roupagem social.



Passei a reencontrar minha pobreza, a me ver em cada situação de miséria, e de me colocar em contato com minhas dores internas. Dali clamar por cura, libertação, comunidade e amor. Pedir misericórdia e ser restaurado.



Quem serve, serve de cima, Jesus nos chama a encarnar a nos vermos no outro e a nos colocarmos por baixo. A deixar de confiar em nossa capacidade e mudar o rumo para irmos ao encontro de nossas feridas e dores. De lá descobrir o poder que existe em sermos menos e não mais.



Desisti de servir aos pobres. Voltei a descobrir minha pobreza. E com ela posso clamar: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim”



Fonte:Blog Na rua com Deus, via Blog Desconstruindo Fortalezas, via A Bacia das Almas

13/05/2010

A molecagem dos moleques da vila

Por Ed Rene Kivitz

No episódio envolvendo os jogadores do Santos numa visita ao Lar Espírita Mensageiros da Luz, que cuida de crianças com paralisia cerebral para entregar ovos de Páscoa, uma parte dos atletas, entre eles, Robinho, Neymar, Ganso e Fabio Costa, se recusou a entrar na entidade e preferiu ficar dentro do ônibus do clube, sob a alegação que são evangélicos e não sabiam que se tratava de uma casa espírita.
Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.

A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé.
A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais de todas e cada uma das tradições de fé.
Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo, ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião. Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião. Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião.



O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai. E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixam de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.

Mas quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas.

E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz. Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, faz com que os discordantes no mundo das crenças se deem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião.

Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia cerebral.



Fonte: Comunidade Orkut Caio Fábio

27/11/2009

Crer ou Ser? Eis a questão.




“Acreditar em algo e não vivê-lo é desonesto."

(Gandhi)



Gandhi nutria um amor pelo cristianismo, porém odiava os cristãos. Pois estes, segundo ele, não vivem segundo os ensinamentos de Cristo. Certa vez ele disse: “Eu seria cristão, sem dúvida, se os cristãos o fossem vinte quatro horas por dia.”



O que o atrapalhou a ser tornar cristão foram os próprios cristãos.



Infelizmente muitos ficam conformados com o estereótipo, se preocupam por demais em afirmar que crêem, mas negligenciam o ser, revelando assim uma completa incoerência entre o discurso e a ação.




Crer e ser, eis a solução!




Mais do que crer, Deus nos chama para Ser!




Ser a Sua própria mensagem no mundo. E isso implica em transgredir a superficialidade. E para tal, é necessário viver o que se crer até no mais profundo íntimo da alma. É ter a mensagem presente no próprio caráter e não somente na boca, até “Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração” (II Coríntios 3:3).



È hora de jogar fora as roupas bonitas de fariseu que não conseguem esconder o fedor e a feiúra da hipocrisia e ficar nu. Isso mesmo, Deus quer o homem nu.




Pergunte a Isaías, ele sabe muito bem o que é isso, o próprio Deus ordenou:



“... vai, solta o cilício de teus lombos, e descalça os sapatos dos teus pés. E ele assim o fez, indo nu e descalço... assim como o meu servo Isaías andou três anos nu e descalço, por sinal e prodígio sobre o Egito e sobre a Etiópia, assim o rei da Assíria levará em cativeiro os presos do Egito, e os exilados da Etiópia, tanto moços como velhos, nus e descalços, e com as nádegas descobertas, para vergonha do Egito” (Isaías 20: 2 -4).



Isaías, o profeta, teve a missão de encarnar a mensagem. E com certeza não foi fácil andar três anos nu. Ele não era nenhum doído varrido, antes era pai de família, uma pessoa culta e respeitada entre os homens.




Mesmo que de primeira vista possa parecer algo desprovido de sentido, no fundo tudo o que Deus faz tem propósito. E naquela ocasião, ao ordenar para que o profeta andasse nu, Deus estava mostrando para aquele povo (Egípcios e os Etíopes) como eles iriam ficar debaixo do domínio dos Assírios.




Com isso percebemos que o profeta foi a mensagem e o mensageiro! Ele mesmo viveu a mensagem que estava pregando.




Às vezes vendemos uma imagem que esta longe da nossa realidade. Como as revistas fazem ao esconder as imperfeições do corpo de suas modelos, assim também o homem busca esconder seus defeitos, fazendo com que ele viva um verdadeiro “foto shop existencial”.



Chega de “fotoshopadas”, a Graça divina mira a imperfeição do homem, por mais paradoxal que isso possa ser, a perfeição de Deus encontra encaixe (pela Graça) na imperfeição do homem. E é justamente ali na nossa fraqueza que o Seu o poder se aperfeiçoa.




Para o verbo se fazer carne, esta tem que ficar nua. Pois a imagem de Deus só é refletida na vida daqueles que mostram sua própria imagem, tal qual ela é, sem retoques.



È hora de deixar de ser CRISTÃO para ser cristão.




Que possamos tão somente ser pequenos cristos. Dessa forma Cristo irá crescer a cada dia mais e mais em nós, seus cristinhos. E assim teremos condições de falar como Paulo em I Coríntios 11:1; “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”.