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03/06/2014
16/03/2011
Uma mensagem de Graça: Nicolas Winton
Fantástica essa história.
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Reflexão
08/08/2010
A Grande Camuflagem
Por Voltaire Schilling*
“Nós não contamos os corpos.”
General Tommy Franks, comandante em chefe do Comando Central dos Estados Unidos
Quando a câmara da televisão se aproxima da tragédia, só mostra um automóvel ou qualquer outra viatura totalmente retorcida ou ainda um prédio seriamente danificado. Por vezes, pedaços de metal fumegando. Uma voz nos indica que aquele atentado, por homem ou carro-bomba, provocou um número considerável de mortos e uma leva de feridos. E é só. Outra notícia nos indica que uma guarnição norte-americana fora atacada numa cidade qualquer do interior do Iraque ou emboscada numa montanha do Afeganistão, com significativas baixas.
Todavia nada vemos. Nenhuma cena ou foto nos mostra um fardado agonizando ou um civil destroçado em meio aos lençóis imundos de um ambulatório de Bagdá ou de Kandahar. Como também não nos dão a oportunidade de presenciarmos um sepultamento sequer.
Os Estados Unidos da América travam uma das mais longas guerras da sua violenta história (A guerra afegã, iniciada com a invasão de 2001, já superou em tempo a participação dos EUA na Primeira [dois anos], na Segunda [quatro anos] e na Guerra da Coreia [dois anos]), tendo em seu favor a Grande Camuflagem.
A mídia corporativa do país, por inteiro, com seus milhares de jornalistas e repórteres que trabalham nas grandes e pequenas redes que se espalham tentacularmente pelo país (além das Três Grandes, CBS, NBC e ABC, existem outras 20 mais) confabulou no sentido de cooperar com o Departamento de Estado, leia-se Pentágono, no sentido de não excitar a opinião pública interna contra a continuidade da guerra.
Não vemos um soldado sangrando ou em bandagens, nenhum deles amputado conduzido numa cadeira de rodas, como era comum ver-se durante a Guerra do Vietnã (1965-1975). Não há fotos mostrando as enfermarias repletas do Hospital Militar de Landstuhl na Alemanha, para onde os casos mais graves são transferidos. Como por igual não presenciamos pela televisão a cerimônia da bandeira sendo entregue à mãe ou viúva do soldado americano morto, e isto que eles já ultrapassaram os 5,3 mil (o dos feridos é de 36,8 mil).
O mais intrigante da operação da Grande Camuflagem é a integral colaboração das mídias aliadas (da alemã, da francesa, da inglesa, da italiana, da espanhola, e outras mais) no sentido de evitar que ‘imagens negativas da guerra’ possam vir a prejudicar os Estados Unidos no seu projeto de submissão do Afeganistão e do Iraque.
Folheie-se qualquer dos jornalões europeus e também nada se encontrará. É o maior paradoxo da historia da mídia ocidental. Todos são de países democráticos que advogam a liberdade de expressão e de imagem, dispondo de enormes recursos e equipamentos dos mais sofisticados ao tempo em que, em uníssono, abraçaram a causa do Pentágono em produzir uma guerra sem que apareçam feridos ou mortos, uma guerra sem sangue e sem destruição.
Fonte: ZH (zerohora.com)
* Historiador
“Nós não contamos os corpos.”
General Tommy Franks, comandante em chefe do Comando Central dos Estados Unidos
Quando a câmara da televisão se aproxima da tragédia, só mostra um automóvel ou qualquer outra viatura totalmente retorcida ou ainda um prédio seriamente danificado. Por vezes, pedaços de metal fumegando. Uma voz nos indica que aquele atentado, por homem ou carro-bomba, provocou um número considerável de mortos e uma leva de feridos. E é só. Outra notícia nos indica que uma guarnição norte-americana fora atacada numa cidade qualquer do interior do Iraque ou emboscada numa montanha do Afeganistão, com significativas baixas.
Todavia nada vemos. Nenhuma cena ou foto nos mostra um fardado agonizando ou um civil destroçado em meio aos lençóis imundos de um ambulatório de Bagdá ou de Kandahar. Como também não nos dão a oportunidade de presenciarmos um sepultamento sequer.
Os Estados Unidos da América travam uma das mais longas guerras da sua violenta história (A guerra afegã, iniciada com a invasão de 2001, já superou em tempo a participação dos EUA na Primeira [dois anos], na Segunda [quatro anos] e na Guerra da Coreia [dois anos]), tendo em seu favor a Grande Camuflagem.
A mídia corporativa do país, por inteiro, com seus milhares de jornalistas e repórteres que trabalham nas grandes e pequenas redes que se espalham tentacularmente pelo país (além das Três Grandes, CBS, NBC e ABC, existem outras 20 mais) confabulou no sentido de cooperar com o Departamento de Estado, leia-se Pentágono, no sentido de não excitar a opinião pública interna contra a continuidade da guerra.
Não vemos um soldado sangrando ou em bandagens, nenhum deles amputado conduzido numa cadeira de rodas, como era comum ver-se durante a Guerra do Vietnã (1965-1975). Não há fotos mostrando as enfermarias repletas do Hospital Militar de Landstuhl na Alemanha, para onde os casos mais graves são transferidos. Como por igual não presenciamos pela televisão a cerimônia da bandeira sendo entregue à mãe ou viúva do soldado americano morto, e isto que eles já ultrapassaram os 5,3 mil (o dos feridos é de 36,8 mil).
O mais intrigante da operação da Grande Camuflagem é a integral colaboração das mídias aliadas (da alemã, da francesa, da inglesa, da italiana, da espanhola, e outras mais) no sentido de evitar que ‘imagens negativas da guerra’ possam vir a prejudicar os Estados Unidos no seu projeto de submissão do Afeganistão e do Iraque.
Folheie-se qualquer dos jornalões europeus e também nada se encontrará. É o maior paradoxo da historia da mídia ocidental. Todos são de países democráticos que advogam a liberdade de expressão e de imagem, dispondo de enormes recursos e equipamentos dos mais sofisticados ao tempo em que, em uníssono, abraçaram a causa do Pentágono em produzir uma guerra sem que apareçam feridos ou mortos, uma guerra sem sangue e sem destruição.
Fonte: ZH (zerohora.com)
* Historiador
10/03/2010
03/01/2010
Piratas, flibusteiros e banqueiros
John Locke (1632-1704), filósofo inglês e ideólogo do liberalismo, é considerado um dos principais teóricos do contrato social. No seu Segundo tratado sobre o governo civil, expõe sua teoria do Estado Liberal e da propriedade privada.
Henry Morgan (1635-1688 ) foi um corsário inglês que, associado ao pirata holandês Eduard Mansvelt, formou uma companhia de flibusteiros que realizaram inúmeros e devastadores saques às colônias espanholas da América. Quando Morgan governou a Jamaica, as instruções acerca de como governá-la foram escritas por Locke. A união Locke-Morgan historicamente sustentada não deve causar nenhum arrepio ético às consciências neoliberais, pois a associação da coroa inglesa da época com a pirataria marítima era procedimento escrito e contratado sob a proteção do conhecido lema da Ordem da Jarreteira Honni soit qui mal y pense, a mais prestigiosa do Reino Unido e cujo Grão-Mestre é o Monarca da Inglaterra. Portanto, longe de nós pensarmos mal de uma associação de tão nobres patrocinadores com tão benéficos e lucrativos resultados.
Piratas e flibusteiros, personagens ao mesmo tempo heroicos e cruéis que tanto matavam como morriam, foram parte essencial do processo de acumulação capitalista e agentes que as companhias comerciais da Inglaterra adotaram para se beneficiar dos resultados dos descobrimentos espanhóis e portugueses. Assaltar e roubar os galeões carregados de ouro e prata dessas duas potências marítimas proporcionou uma enorme acumulação de capitais que deram origem à revolução industrial, à criação de instituições básicas do capitalismo (bancos, bolsas, ações) e a elaboração das bases teóricas da economia liberal.
Para se ter uma ideia, o embaixador mexicano Guaicaipuro Cuatemoc junto ao FMI informa constar no Arquivo da Índias Ocidentais que somente entre 1503 e 1660 chegaram à Espanha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de prata provenientes da América. E que se fossem cobrados nesses últimos 300 anos juros de 2% anuais (e não 20% como o FMI cobra), não haveria riqueza em toda a Europa para pagar tais saques.
Os espanhóis e portugueses arrancavam os preciosos metais das minas com trabalho escravo, e seus galeões eram saqueados pelos bergantins piratas que os limpavam de cabo a rabo. E por que a Espanha não teve piratas? Por que não teve capitalismo. Então, qual a finalidade do ouro que os espanhóis transportavam nos galeões? Criavam indústrias, máquinas a vapor, proletários, greves, cidades? Nem sabiam o que era isso. O que a nobreza espanhola comprava na Inglaterra eram refinadas opulências para o gozo dos gran señores ociosos. Onde se vive para o gozo não há produção nem trabalho, e onde não há produção não há capitalismo. Então, os piratas roubavam ouro destinado ao gozo e os jogavam na bolsa de Londres, na produção industrial. Ao lado de um galeão espanhol, um bergantim pirata significava o progresso econômico.
Os piratas de ontem, hoje se transformaram em agentes financeiros que, não a bordo de um bergantim de guerra, mas sentados frente a um computador manejam riquezas enormes, incontroláveis e agressivas, as quais jogam continentes inteiros na miséria, na destruição da natureza, na guerra.
O capital, disse certo redivivo “filósofo da práxis”, vem ao mundo respingando sangue e lodo. E agora, trazido por neopiratas e neoflibusteiros.
* MÉDICOFonte: click RBSHenry Morgan (1635-1688 ) foi um corsário inglês que, associado ao pirata holandês Eduard Mansvelt, formou uma companhia de flibusteiros que realizaram inúmeros e devastadores saques às colônias espanholas da América. Quando Morgan governou a Jamaica, as instruções acerca de como governá-la foram escritas por Locke. A união Locke-Morgan historicamente sustentada não deve causar nenhum arrepio ético às consciências neoliberais, pois a associação da coroa inglesa da época com a pirataria marítima era procedimento escrito e contratado sob a proteção do conhecido lema da Ordem da Jarreteira Honni soit qui mal y pense, a mais prestigiosa do Reino Unido e cujo Grão-Mestre é o Monarca da Inglaterra. Portanto, longe de nós pensarmos mal de uma associação de tão nobres patrocinadores com tão benéficos e lucrativos resultados.
Piratas e flibusteiros, personagens ao mesmo tempo heroicos e cruéis que tanto matavam como morriam, foram parte essencial do processo de acumulação capitalista e agentes que as companhias comerciais da Inglaterra adotaram para se beneficiar dos resultados dos descobrimentos espanhóis e portugueses. Assaltar e roubar os galeões carregados de ouro e prata dessas duas potências marítimas proporcionou uma enorme acumulação de capitais que deram origem à revolução industrial, à criação de instituições básicas do capitalismo (bancos, bolsas, ações) e a elaboração das bases teóricas da economia liberal.
Para se ter uma ideia, o embaixador mexicano Guaicaipuro Cuatemoc junto ao FMI informa constar no Arquivo da Índias Ocidentais que somente entre 1503 e 1660 chegaram à Espanha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de prata provenientes da América. E que se fossem cobrados nesses últimos 300 anos juros de 2% anuais (e não 20% como o FMI cobra), não haveria riqueza em toda a Europa para pagar tais saques.
Os espanhóis e portugueses arrancavam os preciosos metais das minas com trabalho escravo, e seus galeões eram saqueados pelos bergantins piratas que os limpavam de cabo a rabo. E por que a Espanha não teve piratas? Por que não teve capitalismo. Então, qual a finalidade do ouro que os espanhóis transportavam nos galeões? Criavam indústrias, máquinas a vapor, proletários, greves, cidades? Nem sabiam o que era isso. O que a nobreza espanhola comprava na Inglaterra eram refinadas opulências para o gozo dos gran señores ociosos. Onde se vive para o gozo não há produção nem trabalho, e onde não há produção não há capitalismo. Então, os piratas roubavam ouro destinado ao gozo e os jogavam na bolsa de Londres, na produção industrial. Ao lado de um galeão espanhol, um bergantim pirata significava o progresso econômico.
Os piratas de ontem, hoje se transformaram em agentes financeiros que, não a bordo de um bergantim de guerra, mas sentados frente a um computador manejam riquezas enormes, incontroláveis e agressivas, as quais jogam continentes inteiros na miséria, na destruição da natureza, na guerra.
O capital, disse certo redivivo “filósofo da práxis”, vem ao mundo respingando sangue e lodo. E agora, trazido por neopiratas e neoflibusteiros.
Para os que defendem a "ordem estabelecida" ou condenam qualquer "perturbação da ordem" vale lembrar que esta ordem foi estabelecida em cima da pilhagem, de assassinatos e crimes contra a humanidade e na maioria das vezes com o consentimento ou a mando da Santa Igreja.
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