15/02/2011

Cristo Concreto



Gostaria de acreditar em certas coisas que um dia acreditei, mas isto não é mais possível. Alguém já disse em algum lugar que a fé é semelhante a uma escada cujo degrau de baixo desaparece quando tocamos o de cima.

Foi exatamente isto que aconteceu comigo: coloquei os pés no degrau de cima e o de baixo desapareceu. Agora nada mais resta de hoje para trás, nem mesmo as experiências que um dia julguei espirituais.

Não encontrei espiritualidade na igreja e nem no cristianismo, e jamais poderia tê-la encontrado. Li a Bíblia diversas vezes (de Gênesis à Apocalipse) e não consigo encontrar uma relação de compatibilidade entre o que ela diz e aquilo que a igreja ensina e pratica.

Entre as grandes falácias da igreja cristã, sobretudo a protestante, a maior é a histórica transformação do Jesus Cristo homem concreto em um arquétipo platônico separado das ações reais dos cristãos e das práticas da igreja.

É muito comum dentro da igreja alguém dizer a você para “olhar para Cristo e não para os homens”. Essa frase abjeta e evasiva é muito conveniente para explicar o inexplicável e justificar a atitude dos cristãos que em nada se parecem com aquele de quem dizem ser o seu Senhor e mestre.

Dizer para as pessoas olharem para Cristo e não para os homens (cristãos) é algo semelhante ao conselho hipócrita de um pai que diz para o seu filho não fumar e ele mesmo, sacando um maço de cigarros do bolso, acende um e começa a fumá-lo e soltar cinicamente a fumaça em forma de espirais.

Esse Cristo transcendente, arquetípico, para quem devemos olhar ao mesmo tempo em que ignoramos os homens é uma abstração teórica que jamais poderá ser conhecida pelas pessoas. O Cristo que as pessoas querem conhecer deveria revelar-se nos seus seguidores, naqueles que se dizem seus discípulos.

O Cristo para o qual dizem que eu preciso olhar ao mesmo tempo em que ignoro as barbaridades e falsidades cometidas pelos seus pseudo-seguidores, não passa de uma idéia no melhor estilo platônico. Ele é só um conceito eclesiástico, uma abstração criada por uma instituição falida!

Esse Cristo metafísico, afastado do mundo, com nojo de tudo e de todos, não passa de uma anomalia teológica, de uma criação monstruosa com cara de bom samaritano. O Jesus Cristo de quem fala a Bíblia nos evangelhos não é um “ghost”, como deseja a igreja.

Os discípulos citados na primeira epístola de João “viam, tocavam e apalpavam” o Cristo, o verbo da vida. Entretanto, o Cristo da igreja contemporânea é muito rarefeito para ser visto nas ações dos cristãos, para ser tocado; ele é um fantasma, uma aparição, um conceito e não um ser real passível de materialização.

A igreja citada no livro dos Atos dos Apóstolos “caiu na graça” do povo porque vivia de forma comunitária e manifestava o amor em atitudes concretas ao invés de ensinar conceitos vazios criados para justificar o injustificável.

O Cristo só está vivo quando se materializa nos seus discípulos!

O Jesus Cristo da igreja é o messias da superestrutura, é o senhor invisível deslocado do cotidiano, ausente do dia-a-dia, alheio aos maus exemplos dos seus falsos seguidores. Esse Cristo eu desprezo, não tenho e nem quero ter qualquer relação com ele!

Contudo, tenham certeza de que não pronuncio estas palavras objetivando proferir um discurso moralista ou pseudo-espiritual. O problema é que não acredito mais nesses jargões vazios que não passam de desculpa para justificar a maledicência que os verdadeiros discípulos do Cristo há muito já deixaram para trás!

André Pessoa

4 comentários:

disse...

Até você meu querido? Te entendo, Paulo disse sedes meus imitadores como eu sou de Cristo, e realmente não da pra sermos imitadores destes. Sei que a igreja citada no livro dos Atos dos Apóstolos “caiu na graça” do povo porque tinham a experiência de fé, isso porque sua religião se manifestava no prazer de estar na presença de Deus e em servir aos outros, como você disse tinham vida comunitária e a o amor de Jesus se manifestavam neles.

Não desiste ok. Paz!

disse...

Ufa, agora que vi que o texto não seu, rss que bom. Paz e bjs!

Claudio Silva disse...

Obrigado pelo comentário Rô!!
Embora o texto não seja meu, eu sou simpático (com tristeza) ao seu conteúdo, pois a institucionalização da igreja a tornou na antítese das práticas de Jesus.
Cito como exemplo o "movimento de adoração" adoram um ícone, um ídolo de uma representação mental de um deus pagão intangível que a religiosidade constroi enquanto que a adoração que Ele nos pede é aquela que é manifestada concretamente no serviço ao próximo. Teria outros exemplos para colocar e sei que em muitos lugares de culto ainda há uma manifestação genuína do amor a Deus e ao próximo, mas estes exemplos ou estão muito bem escondidos ou estão cada vez mais raros.
Abraço fraterno

disse...

Estão cada vez mais raros sim, e o texto é bem verdadeiro. Paz!