21/02/2009

Odeio cachórros




Por Marta Rolim *


A Organização Mundial de Saúde estima que, em países emergentes, a população canina é de cerca de 10% a 16,7% da população humana.


Considerando que na capital gaúcha residem 1,430 milhão de pessoas (dados do IBGE 2008), podemos supor, com razoável senso especulativo, que só na zona sul de Porto Alegre habitam uns 100 mil cães. Na minha casa moram cinco deles. Todos vão bem, obrigada.

O curioso é que tenho uma querida amiga que olha pros meus pets, e diz sem-cerimônia: “Odeio cachórros!” E fala exatamente com esse acento ferindo a vogal antes de explodirem os erres, como rosnados.

Prestes a atacá-la, em reação defensiva, descobri que ela tem suas razões. A culpa não é dos cães, mas a seção de roupinhas e papinhas pra cachorro no supermercado é maior do que a seção de roupinhas pra bebê. Os bebês estão sendo relegados a segundo plano no “commerce”, refletindo mudanças no comportamento familiar. Tranquilo? Olha, não sei, mas pets não são bebês, certo?

Entre um choro de criança e um latido agudo de cadelinha com vestido cor-de-rosa, a quem você atenderia primeiro? Escolha de Sofia?

A questão relevante não é concretamente essa. Posso estar parodiando um drama hollywoodiano, mas cá entre nós, se existe algum grau desse dilema em nossos corações, acho que precisamos repensar valores.

Eu tenho muito carinho pelos meus perros e não há dúvida de quanto bem um cão pode fazer a uma pessoa. Da companhia e aceitação incondicional, à função de guia, de guarda ou cão de salvamento e resgate. E para quem assistiu Marley e Eu no cinema: também chorei. Todavia, quando ouço minha amiga falar – e ela não é pessoa cruel –, quando ouço ela dizer “Odeio cachórros”, penso que sua voz talvez seja um alerta, que ela está dizendo, na verdade, que os cães podem estar ocupando papéis equivocados em nossas famílias, em nossos lares.


Os cães não precisam de feroz treinamento de atleta ou de roupinha rosa e carinho em excesso pra viverem bem. E nós podemos estar deixando de dar atenção a quem mais precisa.

Por outro lado, atos gratuitos de violência contra animais sugerem um desequilíbrio emocional importante, e do viés legal, constituem crime.
Abandonar filhotes e cães adultos é uma triste irresponsabilidade, além de um caso de saúde pública.


O que se espera das autoridades competentes, creio, é que se propicie, notadamente, campanhas educativas e acesso facilitado e continuado a serviços de esterilização animal.

Porém, entre o gesto de escolher a cadelinha cor-de-rosa e o gesto de abandonar rapidamente a ninhada, numa rua qualquer, deve nascer um olhar, me parece, que enxergue o cão verdadeiro. Aquele que não necessita de laquê e de supertreinamento de atleta (salvo cães do exército ou da polícia), aquele que não é um bibelô e nem um objeto ao seu dispor, mas que é um ser relativamente domesticado, dependente do ser humano para sobreviver, mas com interesses próprios: o Canis familiaris, Canis lupus familiaris.

Se pudermos lidar com os bichos de estimação de maneira menos passional, mas sempre responsável, acho que os cães viverão bem melhor e nós, em contrapartida, poderemos dedicar mais de nosso tempo e empenho, quem sabe, às necessidades da nossa comunidade ou à preservação da floresta Amazônica e seu leque inteiro de espécies únicas rumando direto para a extinção.

Dificilmente alcançaremos um consenso sobre esse tema, mas torço para que nos permitamos ao menos uma pontinha de dúvida ao analisarmos nossas atitudes cotidianas e que dá próxima vez que formos ao supermercado reflitamos um minuto nessa questão.

(*) Psicóloga

2 comentários:

Anônimo disse...

penso o mesmo, texto inteligente, parabéns.
esses dias estava passeando com meu cao e com meu bebe, no carrinho. reparei que algumas pessoas olhavam e diziam "ai que fofinho" para o cachorro e nem olhavam para o bebe, que diga-se de passagem, é a coisinha mais linda do universo. enfim, ha uma clara confusao de valores. nao odeio caes, mas nao suporto gente que trata bicho como gente!!!

Claudio Silva disse...

Obrigado pelo comentário. Abraços.