
a louca multidão que
Falar é interpretar, escrever é ler, e todo vocabulário contém em si sua própria mitologia1. Na literatura recente e emergente de espiritualidade cristã, um dos modos mais populares de se descrever a postura divina está na idéia de que – para usar a expressão do modo como a uso sempre (por exemplo, aqui e aqui) – Deus não faz barganhas. Quem interpreta a coisa dessa forma enxerga com dardejante clareza que, como apresentado na Bíblia (ou, pelo menos, nos evangelhos), o Deus da Bíblia (em contraposição ao mais inofensivo – e, digamos, mais pagão – Deus do cristianismo institucional) absolutamente não se dobra barganhas: não as oferece, não as estimula e, no fim das contas, não as aceita. Esta, que eu saiba, é uma leitura muito recente do texto bíblico. Pode ter espreitado desde sempre, em regime potencial, nas páginas da Bíblia; pode ser uma leitura acurada,«Não há privilégios, não há abatimentos e não há desculpas no reino do céu.» coerente e no fim das contas muito natural, mas penso só ter sido articulada com a devida contundência em tempos recentes. Na verdade, pode ser que tenha sido apenas recentemente que a humanidade tenha adquirido as ferramentas necessárias para apreender este aspecto da revelação na inteireza de seu caráter revolucionário e desconcertante beleza. A noção de um Deus que não faz barganhas encontra muita ressonância na cínica e generosa cosmovisão pós-moderna, pois propõe ou demonstra uma divindade inclusiva e subversiva, inteiramente à margem das estruturas e sistemas usuais de poder. Fala de um Deus livre, gratuito e libertário: free as in beer, free as in freedom. Um dos maiores campeões contemporâneos desta leitura do Deus cristão e de sua Bíblia é o insubmisso Brennan Manning, que em provocações como O Evangelho Maltrapilho propõe aos seus ouvintes um retorno radical à mais radical das idéias cristãs: a da graça pura, simples (”e sem gelo”) – aquela que não requer nada em troca e por isso abomina e exclui qualquer mecanismo de retribuição, negociação, crédito ou descrédito. No Brasil, provavelmente ninguém trabalhou mais para divulgar esta singela revolução do que o sempre incandescente reverendo Caio Fábio. Um de seus livros mais populares,«Todos que acolhe em seu reino Deus serve da mesma forma.» escrito em 2002 mas que recupera idéias de obras anteriores, chama-se precisamente Sem barganhas com Deus. O evangelho, explica Caio Fábio, existe para denunciar e reverter a Teologia Moral de Causa e Efeito, que permanece sendo, em última análise, a teologia da igreja cristã – “uma quase-graça que, não sendo totalmente-graça, é des-graça”. E, dizendo isso, o brasileiro Caio Fábio ecoa sem ruído o norte-americano Manning: “Dito sem rodeios: a igreja evangélica dos nossos dias aceita a graça na teoria, mas nega-a na prática. Dizemos acreditar que a estrutura mais fundamental da realidade é a graça, não as obras – mas nossa vida refuta a nossa fé”. Se digo tudo isso é para fazer uma confissão e para dar um testemunho. A confissão é que embora endosse a idéia como se fosse minha e tenha me tornado praticamente incapaz de ler a Bíblia sem que seja através da sua lente, não cheguei por mim mesmo à noção do Deus que não faz barganhas. O testemunho é que não foram Caio Fábio ou Brennan Mannigan que me conduziram a ela, mas – mais uma vez – a prosa lúcida do agnóstico H. G. Wells. Em outro trecho de sua Breve História do Tempo (1922), que segue ao parágrafo que citei anteriormente, Wells segue expondo sua visão sobre as impensáveis demandas do ensino de Jesus:
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“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8:36)
O primeiro efeito da verdade do Evangelho em nossas vidas – antes de qualquer outra coisa – é que ela nos liberta. Somos absolutamente livres, pois para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Sim, ele nos chamou para sermos livres (Gl 5:1), e ninguém é mais livre do que alguém contra quem não há mais nenhuma condenação (Rm 8:1).
E a verdade do Evangelho nos liberta de quê?
Primeiramente nos liberta da Lei (Rm 7:6), que criminalizava nossos pecados (Rm 3:19, 4:15; I Co 6:12), mantendo-nos sob maldição (Gl 3:10) e na iminência da condenação eterna, pois “o salário do pecado [transgressão da Lei] é a morte” (Rm 6:23). Assim, ficamos absolutamente livres do medo (I Jo 4:18).
Libertando-nos da Lei, a verdade do Evangelho nos liberta também da neurótica e ilusória busca por justiça própria (legitimada pela Lei) com o propósito de garantirmos uma vaga no céu e barganharmos favores e a salvação com Deus.
Libertando-nos da Lei e da busca por justiça própria, a verdade do Evangelho nos liberta da mente autojustificada, que domina o homem natural enquanto ele vive (Rm 7:1).
Libertando-nos da Lei, da busca por justiça própria e da mente autojustificada, a verdade do Evangelho nos liberta ainda do domínio do pecado (Rm 6:14).
E a verdade do Evangelho nos liberta para quê?
Cristo nos liberta para que sejamos livres nele. É em Cristo que somos totalmente livres, pois é no seu Espírito que há liberdade (II Co 3:17). E, estando livres no Espírito do Senhor, temos a mente do nosso libertador (I Co 2:16), pois somos habitados por ele, pelo Pai e pelo Espírito (Jo 14:23; I Co 3:16). Com eles aprendemos a discernir o que convém e edifica (I Co 10:23) e experimentamos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12:2).
Quem não está em Cristo está sob o jugo da Lei Mosaica ou da “norma da lei” [critério meritório natural] na consciência (Rm 2:15) e, portanto, sob maldição e já morto em seu delitos e pecados (transgressões da Lei – Ef 2:1).
Fora da Graça de Cristo, não há ninguém livre. Quem permanece nele tem vida em abundância (Jo 10:10), e “aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou” (I Jo 2:6).
Só perceberemos o imensurável valor da Graça de Cristo se tivermos a exata noção da libertação que ela nos proporciona, mediante uma profunda convicção daquilo de que ela nos livra e salva, de maneira definitiva (Rm 8:1). Sabendo o que significa estar reconciliado com Deus, compreenderemos por que a sua Graça nos basta (II Co 12:9).
Mas, sem que morramos para a Lei (autojustificação), nada disso acontecerá (Rm 7:4; Gl 2:19). Não seremos guiados pelo Espírito (Gl 5:18) e não frutificaremos para Deus, pois não aprenderemos a discernir a vida como uma nova criatura em Cristo, que nasce e amadurece para uma nova consciência, livre, transformada, pacificada e capaz de compreender a vontade do Senhor (Ef 5:17).
(Jun/2009)
Fonte: Texto enviado por e-mail.